Faltam poucos dias para o início do Campeonato Brasileiro. Do início de dezembro até agora, ficamos praticamente órfãos de um bom futebol nos finais de semana. É verdade que nós já estamos na segunda metade da Copa Libertadores, mas os jogos são em terças, quartas e quintas. Nestes primeiros cinco meses, sobra para o sábado e domingo os jogos dos campeonatos estaduais (que, é claro, ainda quero que eles mantenham).
Agora que a maioria dos estados já conhecem seus campeões, é hora de se preparar para o Brasileirão. Vinte times de nove estados vão disputar o almejado troféu de campeão brasileiro, ao longo de 38 emocionantes rodadas. E o bacana, há dez anos continuamos com o mesmo regulamento, o que precisa ser comemorado, já que o Brasileirão foi bizarro por muito tempo.
Para uma liga nacional, o formato "todos contra todos" é o ideal. O mata-mata para um Brasileirão só serviria se os times fossem divididos em grupos, mas duvido muito que o regulamento mude. Fora do Brasil, temos ligas nacionais peculiares, e uma que me chamou bastante atenção recentemente é a liga da Argentina. A terra de Boca Juniors, River Plate, Independiente, Velez Sarsfield e tantos outros times copeiros, tem um dos regulamentos mais confusos do futebol. Este enigma será decifrado logo abaixo.
No quesito jogos, o Campeonato Argentino não é tão confuso. Os 20 principais clubes de lá se enfrentam em dois torneios de grupo único. Nas competições de nome Torneo Inicial e o Torneo final, equivalentes ao primeiro e o segundo turno do campeonato,todos jogam contra todos, e o melhor colocado é declarado campeão do torneio, e garante vaga para a Copa Libertadores. Após os dois turnos, ficam definidos os dois campeões nacionais. Na Argentina, quem ganha um dos torneios, é considerado campeão nacional. Não há uma final entre os vencedores, portanto é possível o país ter dois campeões diferentes no mesmo ano. Em 2012, o Arsenal Sarandi venceu o campeonato do primeiro semestre, e o Velez Sarsfield o segundo campeonato. Dá para afirmar então que Arsenal e Velez são os atuais campeões argentinos.
Se o Brasileirão fosse que nem o Campeonato Argentino, Atlético Mineiro e Fluminense seriam os campeões brasileiros. O Galo teve um primeiro turno avassalador. Já o tricolor carioca dominou a segunda metade do campeonato. Como o nosso formato não é igual ao dos hermanos, só o Flu acabou campeão nacional, por fazer mais pontos que o time mineiro no geral, após o Galo ir muito mal na segunda metade do Brasileirão passado . Até aí, o Campeonato Argentino poderia ser copiado (mas só até aí), embora defendo a Série A como está.
Agora o enigma. No nosso Brasileirão de dois turnos, os rebaixados são definidos de forma simples. Os quatro piores nas 38 rodadas caem. Simples assim. Lá na Argentina o negócio é diferente. Seu time pode ficar em último nos dois turnos e pode não cair. Enquanto, por outro lado, um clube recém promovido à primeira divisão pode conquistar um honroso décimo lugar e ser rebaixado. Tudo isso graças ao chamado "Promedio". O Promedio é um cálculo que os argentinos usam para definir quem cai ou não. Ou seja, para um time ser rebaixado, é necessário avaliar o desempenho da equipe nos torneios Inicial e Final nos últimos três anos. Isso, claro, se a equipe jogou na primeira divisão em todos estes anos. Para os recém promovidos, é avaliado o número de jogos apenas nos anos jogados na Primeira.
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| Independiente ocupa a décima posição do Torneo Final, mas pode ser rebaixado |
O cálculo é feito assim. Soma dos pontos conquistados pela equipe nas últimas três temporadas, dividido pelo número de jogos realizados nestes anos. O resultado dá um número quebrado, exemplo 1,850. É esse código infeliz que pode definir uma vaga na primeira divisão. Quando acaba o Torneo Final - que ocorre por volta do mês de junho - os três times de pior pontuação média são rebaixados. Lá na Argentina, quem cairia agora seriam o Unión, o San Martín e o Independiente, famoso por ser o maior campeão da Libertadores, com sete títulos. Os dois primeiros citados estão mal no Torneo Final, mas o Independiente pode sofrer com um rebaixamento na décima posição - sendo que faltam cinco rodadas para o fim. Enquanto isso, copeiros como Boca Juniors e Velez Sarsfield (em 18º e 19º no Torneo Final), respiram com folga, longe de uma possibilidade real de queda. Confuso.
Sendo assim, resolvi fazer um cálculo sobre como seria o Brasileirão se ele fosse estruturado da mesma forma que o Campeonato Argentino, pelo menos quanto ao rebaixamento. Por nem ter começado a Série A 2013, seria impossível fazer esta análise com equipes como Criciúma, Goiás, Vitória e Atlético Paranaense. Portanto o meu Promedio foi com base no desempenho dos Brasileirões de 2010 a 2012. Eu fiz como o descrito acima. Pontos somados dos três anos dividido pelo número de jogos. Fiquei surpreso com o resultado, pois os quatro rebaixados em 2012 - Palmeiras, Sport, Atlético Goianiense e Figueirense - também seriam rebaixados se o Promedio vingasse no Brasil. O que dá para comprovar que um time que subiu entre este período passaria por mais dificuldades em se manter na Série A do que um clube que foi estável nestes três anos.
Entre os rebaixados nessa situação, considero uma surpresa o Palmeiras estar entre os últimos nesta época. Em 2010 e 2011, o Porco ocupou respectivamente a 10ª e a 11ª posição, mas o 17º lugar em 2012 não salvaria o clube. Já para o caso de Figueirense e Sport era mais óbvio. Os dois clubes fizeram um Brasileirão ruim, e não estiveram na Série A em todas estas temporadas. Também dá para considerar o Atlético Goianiense nesse grupo. O time jogou os três Brasileirões analisados, mas nas três edições brigou para não cair.
Se o nosso campeonato fosse como o do país vizinho, os clubes que começariam o Brasileirão 2013 com menos chances de cair seriam Fluminense, Corinthians, Grêmio, São Paulo e Vasco. Já quem começaria com a corda no pescoço - além dos recém promovidos - seriam Portuguesa, Bahia, Ponte Preta, Náutico e Flamengo. Mais detalhes desta classificação imaginada você pode acompanhar na tabela abaixo.
Apesar de toda esta análise, prefiro ver o Campeonato Brasileiro do jeito como está. O time que está melhor que os outros no ano se torna campeão, e os times que vão mal na temporada caem. O formato daqui é semelhante aos dos principais campeonatos nacionais da Europa, e deixa o Brasileirão mais competitivo e mais atraente, dando chances para todos os clubes participantes. A bola vai rolar no campeonato, e veremos jogos muito mais disputados neste ano. Quem gosta de futebol, não poderá perder o Campeonato Brasileiro. E também, espero que tenham gostado desta pesquisa que durou alguns dias.



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