sábado, 27 de junho de 2015
7 a 1 não foi pouco: foi o começo
É setembro de 2017. O Brasil vai ir até La Paz enfrentar a Bolívia e a altitude. A situação é complicada, pois ganhar dos bolivianos fora de casa sempre é uma tarefa difícil. A Seleção precisa vencer para seguir com chances de disputar a Copa do Mundo de 2018. Um empate ou uma derrota custaria uma inédita desclassificação brasileira da maior competição de futebol do mundo, antes mesmo dela começar.
Este início de texto foi mera ficção, mas pode virar realidade. A derrota de hoje, nos pênaltis, para o Paraguai, evidencia que a goleada sofrida pela Alemanha por 7 a 1 na última Copa foi apenas o começo de uma fase nebulosa que vive o futebol brasileiro atual, e apresenta o que pode acontecer nos próximos anos. A frase "7 a 1 foi pouco", tão dita por milhões de pessoas após aquela derrota no Mineirão, demonstra que o Brasil não aprendeu nada após o maior vexame de sua história no futebol, e que nada foi feito para melhorar tal situação.
Dunga assumiu o time no lugar de Felipão. Seu retrospecto inicial foi perfeito. Dez vitórias em dez amistosos, vencendo inclusive duas seleções campeãs do mundo, como Argentina e França. Só que nestes jogos, já era possível identificar que algo não estava bem. O Brasil vencia mas não encantava, jogando um futebol pragmático, arriscando sempre na jogada aérea, e com a Seleção sempre dependendo do Neymar para conseguir criar alguma coisa.
Então veio a Copa América, o primeiro grande teste do time de Dunga. A impressão que deu foi que o time que jogou no Chile fosse tão ruim ou pior do que a Seleção da Copa de 2014. Jogadores da China, do futebol árabe e da Ucrânia serviram como base para a equipe titular, algo terrível para quem viveu a época em que a base do Brasil era a do Milan campeão europeu de 2003, ou da Inter campeã da Europa em 2010. Nos dois primeiros jogos, contra Peru e Colômbia, a "Neymardependência"ficou ainda mais evidente. Contra os peruanos, a Seleção só venceu por 2 a 1 graças a um gol de Neymar, e um passe do camisa 10 para Douglas Costa concluir, isso já no final do jogo. Na derrota para a Colômbia (a primeira pós-Copa do Mundo), Neymar foi muito bem marcado, mas perdeu a cabeça ao criar uma confusão ao final da partida, foi expulso e suspenso do restante da competição.
A situação ficou crítica. Contra a Venezuela, o Brasil quase sofreu o empate após começar ganhando de 2 a 0, lembrando que os venezuelanos já chegaram a perder por 7 a 0 para a Seleção em outras épocas. A eliminação para o Paraguai foi o ápice para culminar a depressiva campanha brasileira na Copa América, com derrota nos pênaltis para uma equipe que sequer jogou a última Copa do Mundo, ficando em último nas Eliminatórias.
O problema maior é que o Brasil passou por mais um vexame e na entrevista coletiva, Dunga ainda culpou uma virose de alguns jogadores para o mal desempenho da Seleção, não assumindo a culpa de que o time jogou mal. Vexames históricos do Brasil são sempre explicados por motivos que não envolvem a partida, como que se fosse um crime admitir que a Seleção jogou mal e mereceu ser eliminada. É a água batizada, é a convulsão de Ronaldo, é o Roberto Carlos ajeitando a meia, é o Felipe Melo sendo violento, é o Thiago Silva chorando, é a virose, entre outras desculpas. A culpa sempre é destinada a um episódio ou a um jogador, como uma tentativa de não atestar incompetência do técnico e do time pelos maus resultados.
E não, não estou isentando de culpa os dirigentes da CBF. O futebol brasileiro está como está graças a eles. Teixeira, Marin, Del Nero e tantos outros se dedicaram nos últimos anos a receber propina de países candidatos a sediar outras Copas do Mundo, e na realização de amistosos da Seleção longe de casa. Enquanto isso o futebol em nosso país segue terrível, com uma Seleção de raros bons talentos, sem tática e sem qualidade coletiva. Dentro de casa, nossos campeonatos definham em jogos ruins, de baixo público, e com arbitragem irregular em quase todas as partidas.
Espero profundamente que o futebol do Brasil não fique como está, muito menos que piore. A Seleção precisa reconhecer que não é mais a melhor do mundo, para que jogue com humildade e saiba fazer melhor o jogo coletivo. É necessário que técnicos, jogadores e demais profissionais que se dedicam ao futebol, que façam uma reciclagem e comecem a estudar melhor o jogo, para que, não somente a Seleção Brasileira, mas que o futebol brasileiro como um todo possa vir a ter dias melhores. E, principalmente, que a CBF, que manda na Seleção e nos nossos campeonatos, seja menos corrupta, e passe a trabalhar para um desenvolvimento melhor do esporte em nosso país. O 7 a 1 precisa ser tratado como uma lição para dar a volta por cima, e não ser o começo para que tragédias maiores ocorram com o Brasil.
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